Testes divulgados pela Embrapa em 13 de outubro abriram uma possibilidade concreta para o triticale no Cerrado: vender o grão para a indústria de alimentos, principalmente para biscoitos. A oportunidade ainda não autoriza plantar no escuro. O comprador, a cultivar e a indicação para a região precisam ser conferidos antes da compra da semente.
A farinha foi avaliada em 11 produtos. Em seis, houve viabilidade de uso. Em dois tipos de biscoito, a troca da farinha de trigo pelo triticale pôde ser total. Nos demais casos, a substituição foi parcial. O trabalho usou a cultivar BRS Saturno no Cerrado Mineiro e comparou também lavouras experimentais em Carandaí, na Zona da Mata de Minas Gerais.

Na Fazenda Lagoa, os ensaios foram feitos em oito hectares, com semeadura em maio, colheita em setembro e irrigação. A Embrapa informa que a média citada para o triticale irrigado no Cerrado fica entre três e quatro toneladas por hectare; algumas parcelas do experimento passaram de cinco toneladas. É resultado de campo experimental, não promessa de produtividade para qualquer sítio.
Onde o triticale funcionou melhor
O melhor encaixe apareceu nos biscoitos. Nos produtos moldados, a substituição chegou a 100% mantendo expansão e características próximas às feitas só com trigo. Para biscoito tipo maisena, o limite observado foi de até 30%. Wafers, bolos e pizzas também aceitaram troca parcial.
Para pão, o resultado foi mais restrito: a mistura indicada ficou em 50% de trigo e 50% de triticale, para pães de baixo crescimento. A farinha de triticale é mais escura e tem menor força de glúten. Isso reduz a liberdade de trocar o trigo em qualquer receita.
Esse detalhe muda a decisão na pequena agroindústria. O triticale pode ganhar valor quando existe uma receita, um moinho ou uma fábrica interessada em comprar a matéria-prima. Sem esse canal, sobra um grão diferente, com mercado mais estreito que o do milho ou do trigo.
O que conferir antes de plantar
- Cultivar: nem todas as cultivares testadas são indicadas para produzir grãos no Cerrado. A BRS Zênite, por exemplo, tem página técnica da Embrapa com indicação que inclui o Cerrado, mas isso não transforma toda cultivar em opção segura para a sua área.
- Comprador: confirme antes a especificação do grão, o volume aceito, o ponto de entrega e a forma de pagamento. A notícia da Embrapa mostra uma oportunidade industrial, não um contrato de compra para o produtor.
- Água e época: os ensaios de Carandaí foram irrigados. A Embrapa relata potencial também em sequeiro, mas ressalva que a resposta depende da cultivar e que novas avaliações ainda serão feitas.
- Doenças e manejo: a brusone é favorecida por períodos longos de molhamento e temperatura próxima de 25 °C. A escolha da cultivar, a época de semeadura e o monitoramento precisam seguir a orientação técnica local e as recomendações oficiais para a cultura.
- Pós-colheita: combine secagem, armazenagem e transporte antes de semear. A qualidade industrial que interessa à fábrica pode ser perdida por umidade ou mistura de lotes.
O que isso muda para a pequena propriedade
O triticale faz sentido como teste planejado, sobretudo para quem já tem comprador de cereal de inverno, estrutura de secagem ou parceria com uma agroindústria. Também pode entrar em uma rotação, desde que a conta inclua semente, adubação, água, colheita e frete.
Não faz sentido substituir uma lavoura conhecida apenas porque um ensaio passou de cinco toneladas por hectare. O número veio de parcelas irrigadas e de condições específicas. No próprio anúncio, a Embrapa informa que o cultivo do cereal no Cerrado ainda não aparece nas estatísticas oficiais.
Perguntas rápidas
O triticale pode substituir o trigo?
Em alguns alimentos, sim. Os testes apontaram troca total em dois tipos de biscoito e troca parcial em wafers, bolos, pizzas e biscoito de maisena. Para pão, a mistura indicada foi de 50% de cada farinha em produtos de baixo crescimento.
Qualquer cultivar serve para plantar no Cerrado?
Não. A indicação depende da cultivar, do ambiente e do destino do grão. A Embrapa ainda avalia quais materiais podem ser recomendados para produção de grãos no Cerrado.
Vale plantar sem comprador definido?
O risco fica alto. O mercado industrial é uma possibilidade, mas ainda é mais específico. Para uma pequena área, a decisão mais segura é fechar a conversa com moinho, fábrica, cooperativa ou comprador local antes de comprar a semente.
Fontes: Embrapa Trigo sobre os testes no Cerrado; ficha da cultivar BRS Zênite; orientações da Embrapa sobre brusone.