Leilão exclusivo termina sem venda: 30 mil toneladas de milho vão à ampla concorrência
O leilão reservado à agricultura familiar terminou sem venda de milho nesta terça-feira, 18 de agosto. O painel de resultados da Conab registrou 0 kg negociado e sobra de 30 mil toneladas. Com isso, o volume poderá entrar na ampla concorrência marcada para quarta-feira, 19, às 9h, aberta também a comerciantes e outros fornecedores habilitados.
Para o pequeno produtor, o resultado mostra uma trava conhecida: não basta ter milho e CAF válido. Os lotes, a entrega a granel, o frete até o armazém, a garantia e a documentação montam uma operação grande. Na prática, cooperativa organizada tem mais condição de disputar do que produtor isolado.
O que aconteceu no leilão exclusivo
A Conab abriu a compra de 30 milhões de quilos das safras 2025/2026 e/ou 2026. O Aviso 45 aceitava produtores familiares, cooperativas e associações com CAF ou DAP ainda válida. A negociação ocorreu por bolsa de mercadorias, no sistema eletrônico da Companhia.
O volume foi dividido em 22 lotes. O menor tinha 1 milhão de quilos. Outros tinham 1,5 milhão ou 2 milhões de quilos. As entregas estavam distribuídas entre Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso.
Os preços de abertura, sem tributos, variaram de R$ 0,85 a R$ 0,99 por quilo, conforme o lote. Em uma conta por saca de 60 kg, isso corresponde a R$ 51 a R$ 59,40 antes dos tributos e dos custos da operação. Esse valor não é preço líquido no bolso. Frete, classificação, corretagem, movimentação e risco de recusa precisam entrar na conta.

Por que a escala pesa contra o produtor isolado
Um lote de 1 milhão de quilos equivale a mais de 16 mil sacas de 60 kg. Mesmo que o sistema permita representação por bolsa, reunir esse volume com padrão uniforme, documentação certa e entrega programada está longe da rotina de uma propriedade pequena.
O contrato também exige garantia de 5% do valor total da operação. O milho deve ser entregue na modalidade CIF. Isso põe custos, seguro, frete, carga e descarga por conta do fornecedor. A Conab ainda exige certificado de classificação por carga e faz a conferência final de quantidade e qualidade no destino.
Se o produto não passar no padrão, a carga pode ser recusada. Há prazo para pedir arbitragem, mas o custo da nova classificação fica com o fornecedor quando a divergência é confirmada. Milho úmido, com impureza ou lote mal misturado pode transformar uma venda grande em prejuízo grande.
O pagamento ocorre em até dez dias úteis depois da aceitabilidade do produto. Portanto, o produtor precisa bancar colheita, secagem, armazenagem temporária, frete e garantia antes de receber. É capital de giro que muita família não consegue imobilizar.
A ampla concorrência de 19 de agosto
O Aviso 46 está marcado para quarta-feira, às 9h, com os mesmos 30 mil toneladas e preços de abertura entre R$ 0,85 e R$ 0,99 por quilo. A diferença é o público: podem participar produtores rurais, cooperativas e comerciantes habilitados.
Não dá para entrar de última hora só com nota de produtor e carga pronta. O participante precisa estar cadastrado na bolsa que fará a operação, no Sicaf e no Sican. Também precisa estar regular no Cadin e atender às exigências fiscais e trabalhistas. Pessoa jurídica passa ainda pela consulta ao Ceis.
Quem já estava habilitado para o leilão exclusivo pode avaliar a disputa seguinte. Mas o ponto central não muda: lance só faz sentido depois de fechar o custo posto no armazém. Compare o preço por quilo com o preço líquido oferecido no município. Inclua distância, pedágio, quebra, classificação, impostos, corretagem e custo do dinheiro.
O que a cooperativa deve corrigir antes do próximo aviso
O resultado sem negociação não significa falta de milho na agricultura familiar. Mostra que o desenho da operação exige preparação anterior. A cooperativa que pretende entrar em compras públicas precisa deixar cadastro, bolsa, classificação, logística e capital de giro prontos antes da publicação do aviso.
- mapear quantas sacas cada associado realmente entrega, por safra e padrão;
- medir umidade e impurezas em amostra representativa, sem confiar só na aparência do grão;
- cotar frete até cada armazém e conferir a capacidade diária de recebimento;
- definir quem emite nota, quem assume a garantia e como o pagamento volta ao associado;
- simular perda se parte da carga for recusada ou se o caminhão ficar parado.
Para quem vende poucas centenas de sacas, a saída prática continua sendo formar volume por cooperativa ou negociar localmente. A compra da Conab não é um balcão onde qualquer produtor entrega algumas sacas. É contrato por lote, com obrigação de volume, prazo e qualidade.
Quem também compra milho para criação deve separar as duas coisas. Este leilão é de compra para formar estoque público. O acesso posterior ao milho do Programa de Venda em Balcão depende de cadastro, estoque disponível, limite pelo plantel e retirada na unidade indicada.
Perguntas frequentes
O produtor familiar ainda pode participar em 19 de agosto?
Pode, desde que já cumpra as exigências do Aviso 46 e opere por uma bolsa habilitada. A disputa não será exclusiva da agricultura familiar.
A Conab vai buscar o milho na propriedade?
Não. A entrega é CIF. Frete, seguro, carga, descarga e demais despesas previstas ficam com o fornecedor até o destino indicado.
O preço de abertura é o valor líquido da venda?
Não. É referência máxima de abertura sem tributos. O preço pode cair na negociação, e o produtor ainda precisa descontar os custos da operação.
Ter CAF válido basta para vender à Conab?
Não. O leilão exige outros cadastros, regularidade fiscal, representação por bolsa, garantia, padrão do produto e capacidade de entregar o lote contratado.