Ceasas movimentam quase o mesmo volume, mas valor cai 9,29%
As Ceasas brasileiras movimentaram 16,65 milhões de toneladas de frutas e hortaliças em 2025. O volume caiu apenas 0,82% frente a 2024, mas o valor negociado recuou 9,29%, para R$ 68,68 bilhões. Para o pequeno produtor, o recado é direto: colher quase a mesma quantidade não segura a receita quando há muita oferta, produto perecível e pouco espaço para esperar preço melhor.
O dado nacional não é uma cotação de compra e não diz quanto cada agricultor recebeu na roça. Ele mostra o movimento agregado de 54 centrais. Serve como alerta para planejar plantio, colheita, classificação e venda com base na praça local, não só no preço bom visto na safra passada.

Queda no valor pesa mais que o volume
Em 2024, problemas de clima elevaram preços de vários hortigranjeiros. Em 2025, o volume total ficou praticamente estável, enquanto os valores negociados baixaram. Isso ajuda a explicar por que repetir a área plantada e a produtividade não garante repetir o caixa.
Na horta pequena, a conta aperta rápido. Alface, tomate, pepino ou mamão não podem ficar guardados por semanas esperando reação. Quando muitos produtores chegam ao atacado ao mesmo tempo, o comprador ganha força e o descarte aumenta. Frete, embalagem, comissão e perda de peso continuam correndo.
O valor movimentado nas centrais também não é renda líquida do agricultor. Entre o preço no box e o que sobra na propriedade há custo de colheita, seleção, caixa, transporte, descarga e devolução de produto fora do padrão. A decisão deve ser feita pela margem provável, não pelo preço bruto anunciado na pedra.
Hortaliças tiveram recuo maior
Na base de 26 Ceasas com dados detalhados por grupo, o volume de hortaliças caiu 2,8%. Folhosas recuaram 8,2%, e hortaliças-fruto, grupo que inclui tomate, pepino, abobrinha e pimentão, baixaram 6,6%. Raízes, bulbos, tubérculos e rizomas avançaram perto de 1%.
Essas médias não mandam plantar batata nem abandonar alface. O que elas mostram é que cada grupo reagiu de modo diferente ao clima, à área plantada e ao preço. Uma horta diversificada pode distribuir risco, mas só funciona se houver saída para cada produto. Trocar um canteiro inteiro por uma cultura que subiu no relatório, sem comprador acertado, apenas muda o tipo de encalhe.
O tomate dá uma lição clara. Preços fracos na segunda metade de 2024 ajudaram a reduzir área, e a oferta de 2025 ficou menor na maior parte do ano. Mesmo assim, a reação de preço não foi igual em toda praça. Quem tem financiamento do Pronaf ligado à cultura também precisa separar a situação de mercado das regras bancárias. Há casos específicos de bônus do PGPAF para tomate, mas o benefício depende de produto, estado, contrato e período.
O que conferir antes de levar carga à Ceasa
O produtor precisa fechar a conta por praça e por dia de venda. Uma cotação de outra capital pode não pagar o frete até lá. Antes da colheita, confirme com comprador, permissionário ou cooperativa qual volume será recebido, padrão de tamanho, embalagem, horário de entrega e forma de pagamento.
- Anote o preço líquido das últimas entregas, já descontando frete, caixas, comissão e perdas.
- Separe produto por calibre e qualidade. Misturar tudo costuma rebaixar o lote inteiro.
- Combine destino para segunda linha, como feira, cozinha, agroindústria ou venda local, antes de colher.
- Escalone plantio e colheita quando a cultura permitir. Concentrar toda a produção em poucos dias aumenta a dependência de um único comprador.
- Consulte a série da Ceasa que realmente recebe sua carga. Média nacional serve para enxergar tendência, não para fechar negócio.
Para quem entrega poucas caixas, vender direto a mercado, restaurante, feira ou programa institucional pode deixar margem maior. Isso exige constância, nota, padrão e tempo de comercialização. Atacado escoa volume com rapidez, mas cobra eficiência em logística e classificação. Não existe canal melhor em qualquer situação.
Planejamento da safra deve começar pela saída
Antes de comprar muda ou semente, monte três contas: preço normal, preço apertado e perda de parte do lote. Inclua mão de obra da família pelo valor real, mesmo quando não sai dinheiro no dia. Sem isso, uma cultura pode parecer lucrativa e apenas consumir trabalho do sítio.
Também compare janela de colheita com a oferta regional. Plantar junto com todo mundo pode ser tecnicamente fácil, mas comercialmente ruim. Antecipar ou atrasar produção pode melhorar preço, desde que o custo de irrigação, proteção, estufa ou manejo extra não coma a diferença.
O levantamento confirma um mercado grande e ativo, mas com margem sensível a excesso de oferta e clima. Para a pequena propriedade, a recomendação é não ampliar área só porque o preço anterior foi bom. Primeiro trave canal, padrão e custo de entrega. Depois defina quanto cabe plantar sem depender de uma única carga e de um único comprador.
Perguntas frequentes
A queda de 9,29% é o prejuízo do produtor?
Não. É a redução do valor total transacionado nas centrais pesquisadas. A margem de cada produtor depende do preço recebido e dos custos de produzir, classificar e entregar.
O preço da Ceasa vale para venda na propriedade?
Não automaticamente. A cotação ajuda na referência, mas precisa ser ajustada por qualidade, volume, frete, comissão, embalagem, prazo de pagamento e risco de sobra.
Diversificar a horta elimina o risco de preço baixo?
Não. Diversificação reduz dependência de uma cultura, mas exige compradores e rotina para vários produtos. Sem saída definida, pode aumentar descarte e trabalho.
Quando vender direto pode compensar mais?
Quando o volume é menor, há clientela regular e a diferença de preço paga seleção, entrega e tempo de venda. Para carga grande e perecível, o atacado pode escoar mais rápido.