Uma pesquisa da Embrapa está selecionando cultivares de aveia-preta para cobrir o solo de vinhedos da Serra Gaúcha. A aposta mira dois problemas da região: erosão em áreas de encosta e acúmulo de cobre depois de anos de uso de fungicidas à base do metal.
O dado ajuda quem produz uva em terreno inclinado, mas não autoriza uma troca automática de manejo. Em área sem cobertura vegetal monitorada por 12 anos, o solo perdido chegou a aproximadamente 20 centímetros. Em outro experimento, a infiltração de água foi de 140 milímetros por hora com cobertura e caiu para 17 milímetros por hora sem cobertura.

Por que o solo entrou no foco
A viticultura da Serra Gaúcha ocupa áreas de solo raso e declividade acentuada. Segundo a Embrapa, algumas encostas chegam a 30%. Quando a chuva escoa sem encontrar uma cobertura, leva terra, água, fertilizantes e defensivos para as partes mais baixas do terreno.
O segundo ponto é o cobre. O metal é usado em produtos como a calda bordalesa, especialmente no manejo de doenças da videira. Aplicações contínuas podem elevar sua concentração no solo. Em excesso, o cobre pode afetar raízes, absorção de nutrientes, germinação, crescimento e fotossíntese.
Onde a aveia-preta pode ajudar
O azevém é uma cobertura tradicional sob as videiras, mas a Embrapa relata aumento de populações resistentes a herbicidas. Isso dificulta o controle e pode elevar o custo do manejo. A aveia-preta aparece como alternativa porque forma volume de matéria verde e pode proteger o solo no período de maior chuva.
Nos ensaios, o cobre ficou principalmente nas raízes da aveia-preta, com pouca translocação para a parte aérea. Esse comportamento interessa porque pode reduzir a disponibilidade do metal no sistema solo-planta e ajudar a manter a cobertura em áreas onde o excesso de cobre limita o desenvolvimento de outras plantas.
A pesquisa também avalia o material em propriedades vitícolas, com participação de produtores ligados às cooperativas São João, Nova Aliança e Aurora. Essa etapa serve para observar o desempenho em condições reais, não apenas em ambiente controlado.
O que ainda não dá para prometer
A aveia-preta não foi apresentada como solução para descontaminar o solo. Os pesquisadores dizem que ainda são necessários estudos complementares. O resultado atual é a identificação de materiais com tolerância ao cobre e potencial para cobertura, conservação do solo e redução da mobilidade do metal.
Também não é seguro tratar uma cultivar avaliada na Serra Gaúcha como recomendação para qualquer região, tipo de solo ou cultura. O excesso de cobre, a declividade, o regime de chuva e o sistema de condução do vinhedo mudam a decisão.
O que o produtor deve conferir na propriedade
- Se há faixas de solo descoberto entre as linhas e sinais de enxurrada depois de chuvas fortes.
- Se o histórico de uso de fungicidas cúpricos justifica pedir análise de solo com avaliação do cobre.
- Se a assistência técnica local conhece o comportamento da aveia-preta na região e pode orientar cultivar, época e manejo.
- Se a cobertura será compatível com as operações do vinhedo, sem criar competição ou atrapalhar o trânsito de máquinas.
Para o vinhedo em encosta, a notícia reforça uma decisão que costuma ser mais barata do que recuperar erosão: não deixar o solo exposto. A aveia-preta merece acompanhamento como alternativa, mas a escolha deve vir depois da leitura do solo e das condições locais, não antes.
Fontes
- Embrapa: pesquisa seleciona cultivares de aveia-preta para recuperação de solos na Serra Gaúcha, publicada em 6 de outubro de 2026.
- Embrapa Uva e Vinho: Avaliação e seleção de cultivares de aveia-preta para cultivos em solos contaminados por cobre, Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento 26.