Um processo desenvolvido pela Embrapa e pela empresa Efense levou bioinseticidas feitos com fungos entomopatogênicos da fermentação de laboratório para biorreatores de 1.200 litros. O trabalho mira duas pragas que pesam no bolso do produtor: a mosca-branca e a lagarta-do-cartucho.
Para a pequena propriedade, a notícia não significa que já exista um produto novo para comprar. O ganho imediato é outro: a tecnologia atacou gargalos que costumam encarecer o bioinsumo, como produção em escala e perda de eficiência durante o armazenamento.

O que foi validado
O estudo trabalhou com blastosporos de duas espécies de fungos: Beauveria bassiana BRM 14527 e Cordyceps javanica BRM 14526. Essas células são produzidas em fermentação líquida. A vantagem, segundo os pesquisadores, é multiplicar o fungo de maneira mais rápida, uniforme e automatizável do que na fermentação sólida usada para obter conídios.
Nos testes, a produção passou por frascos, biorreatores de 7 litros e, depois, por equipamento industrial de 1.200 litros. O artigo científico relata mais de 1 bilhão de blastosporos por mililitro em até 48 horas. Na escala maior, os cultivos chegaram a uma faixa média de 1,8 a 2,8 bilhões de unidades formadoras de colônia por mililitro entre dois e quatro dias.
A formulação também fez diferença. Uma dispersão com óleo vegetal e sílica amorfa manteve até 3,49 × 108 unidades formadoras de colônia por grama após 90 dias sob refrigeração. O resultado é de estabilidade em condição controlada. Não deve ser lido como prazo universal para qualquer produto, embalagem ou temperatura de galpão.
O que muda no manejo da propriedade
O efeito prático, se a tecnologia virar produto registrado, pode ser ampliar a oferta de bioinseticidas com fungos e facilitar a inclusão deles no manejo integrado de pragas. Isso interessa a quem enfrenta mosca-branca em soja, feijão ou hortaliças e lagarta-do-cartucho no milho.
Mas o manejo começa antes da aplicação. A lavoura precisa ser vistoriada por talhão. Folhas novas, verso das folhas, ponteiros e cartuchos do milho mostram sinais diferentes. O produtor deve anotar praga, fase, reboleira, data e condição do tempo. Esse registro evita trocar monitoramento por aplicação automática — uma regra que também aparece quando se acompanha um alerta de doenças favorecidas pela chuva.
O artigo relata mortalidade de 70% a 93% em ensaios de laboratório e casa de vegetação, na concentração de 10 milhões de blastosporos por mililitro. Também houve redução de ninfas de mosca-branca em duas safras de soja, 2022/23 e 2023/24. Esses números pertencem às condições avaliadas. Não são uma dose pronta para a fazenda nem uma promessa de controle para toda cultura.
O que conferir antes de comprar um bioinseticida
- Registro e alvo: conferir se o produto está registrado para a cultura e a praga presentes na propriedade.
- Bula: seguir dose, volume de calda, intervalo, mistura permitida, armazenamento e equipamento indicados no rótulo.
- Condição de aplicação: calor, radiação solar, chuva logo após a pulverização e baixa umidade podem mudar o desempenho de um fungo.
- Qualidade do lote: verificar validade, integridade da embalagem, necessidade de refrigeração e orientação do fabricante.
- Compatibilidade: não colocar o bioinseticida no tanque junto com outro produto sem previsão expressa na bula.
Também convém separar duas decisões. Uma é reduzir a população da praga. Outra é proteger inimigos naturais e evitar seleção de resistência. O bioinseticida não substitui rotação de mecanismos de ação, controle de plantas hospedeiras, destruição de restos muito infestados e inspeção frequente.
O limite que o produtor precisa guardar
O trabalho mostra um processo industrial tecnicamente viável e uma formulação com melhor estabilidade. Não apresenta, por si só, um produto comercial disponível em revenda, uma recomendação de uso para cada cultura ou um percentual seguro de substituição de inseticidas convencionais.
Para quem produz em área pequena, a decisão correta é acompanhar a chegada de produtos registrados e comparar a bula com o problema real do talhão. Até lá, o resultado serve como sinal de que os bioinsumos podem ganhar regularidade industrial — não como autorização para multiplicar fungos em casa ou preparar caldas fora de orientação técnica.
Perguntas frequentes
O estudo criou um produto que já está à venda?
Não. O estudo validou um processo de produção, formulação, armazenamento e avaliação biológica. A compra depende de produto comercial registrado e disponível.
Quais pragas foram avaliadas?
Foram avaliadas a mosca-branca Bemisia tabaci biótipo B e a lagarta-do-cartucho Spodoptera frugiperda, em ensaios de laboratório, casa de vegetação e lavouras de soja.
Posso preparar o fungo na propriedade?
Não é uma prática indicada a partir desse estudo. Formulação, concentração, contaminação, armazenamento, registro e segurança dependem de controle especializado.
O bioinseticida elimina a necessidade de monitorar a lavoura?
Não. O monitoramento define se a praga está presente, em que fase e se a intervenção faz sentido. O produto é apenas uma ferramenta dentro do manejo integrado.