Bioinseticidas com fungos avançam: o que a pesquisa muda no controle de pragas

Uma pesquisa da Embrapa e da empresa Efense levou bioinseticidas feitos com fungos entomopatogênicos até biorreatores industriais de 1.200 litros. Os resultados apontam um caminho para produtos contra mosca-branca e lagarta-do-cartucho, mas ainda não autorizam trocar o inseticida usado na lavoura por uma receita experimental.

O trabalho resolveu dois gargalos dos blastósporos: produzir em grande volume e manter a atividade durante o armazenamento. Para quem planta soja, milho ou outra cultura atacada por essas pragas, a notícia interessa pelo que pode chegar ao mercado — não por uma dose pronta para uso imediato.

Lavoura de soja em ponto de colheita com pessoas fazendo inspeção entre as plantas

O que foi medido

Os pesquisadores trabalharam com blastósporos de Beauveria bassiana e Cordyceps javanica. Em fermentação líquida, os cultivos chegaram a mais de 1 bilhão de blastósporos por mililitro em 48 horas. Na ampliação para biorreatores de 7 e 1.200 litros, a produção ficou entre 1,8 e 2,8 bilhões de unidades formadoras de colônia por mililitro, conforme a condição avaliada.

A formulação com óleo e sílica manteve a viabilidade por até 90 dias sob refrigeração. Em laboratório e casa de vegetação, os tratamentos alcançaram mortalidade de 70% a 93% contra ninfas de mosca-branca e lagartas de Spodoptera frugiperda, na concentração estudada de 10 milhões de blastósporos por mililitro.

O que chegou ao campo

Houve ensaios em duas safras de soja, 2022/23 e 2023/24. Aplicações sucessivas reduziram a população de mosca-branca nas áreas experimentais. A comparação incluiu bioinseticidas comerciais registrados no Brasil. Isso mostra potencial para integrar o manejo de pragas, mas não transforma o estudo em recomendação universal para qualquer talhão, clima ou pressão de insetos.

Também há um limite prático: a notícia não anuncia marca, registro de produto, cultura indicada, dose comercial, intervalo entre aplicações ou prazo de reentrada. Sem essas informações, não há base para preparar calda, multiplicar fungo na propriedade ou reduzir a aplicação de um produto já prescrito.

Como o produtor deve acompanhar

  • Procure produto com registro e indicação específica para a praga e a cultura. Resultado de pesquisa não substitui rótulo e bula.
  • Confira lote, validade, armazenamento e compatibilidade antes de comprar. Bioinsumo vivo perde desempenho quando fica fora da condição indicada.
  • Faça o monitoramento da lavoura antes de decidir. Mosca-branca e lagarta exigem olhar frequente nas folhas, ponteiros e cartucho do milho.
  • Registre talhão, data, clima, produto, dose de rótulo e resultado. Comparar uma faixa tratada com outra sem aplicação ajuda a separar efeito do produto de efeito da chuva e da pressão da praga.

Se um produto comercial baseado nessa tecnologia aparecer, a escolha deve começar pela indicação registrada e pelo manejo integrado. O ganho não está em trocar um insumo químico por qualquer frasco biológico, mas em usar uma ferramenta com organismo, formulação, armazenamento e aplicação compatíveis com a praga presente.

Perguntas frequentes

A pesquisa já criou um produto para comprar?

Não. O estudo demonstrou um processo de produção e formulação com potencial comercial. A notícia não informa um produto registrado, marca, dose ou canal de venda.

Posso aplicar blastósporos preparados na propriedade?

Não é uma orientação segura. A pesquisa envolve cepas, formulação, controle de qualidade e condições de armazenamento que não podem ser reproduzidos com mistura caseira.

O resultado vale para qualquer cultura?

Não. Os resultados citados foram obtidos contra mosca-branca e lagarta-do-cartucho, incluindo ensaios em soja. A indicação para outra cultura ou praga depende de validação e registro próprios.

O bioinseticida substitui o monitoramento?

Não. O monitoramento define se há praga, qual espécie está presente e se a intervenção é necessária. O produto, quando registrado, entra como uma ferramenta dentro do manejo integrado.