A Embrapa mapeou os municípios brasileiros que merecem mais atenção no monitoramento da qualidade da água por causa de fontes difusas ligadas à agropecuária. O estudo aponta maior prioridade em áreas de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e do Matopiba, além de ocorrências pontuais no Paraná e em São Paulo.
Para quem produz em pequena propriedade, o alerta é prático: chuva forte pode carregar solo, nutrientes e resíduos para córregos, açudes e nascentes. O mapa não é um laudo da água da sua propriedade nem acusa o produtor. Ele mostra onde o poder público deve concentrar o monitoramento e onde o cuidado com solo, adubação e margens de cursos d’água merece ser redobrado.

O que o estudo mediu
Pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente e da Embrapa Solos cruzaram bases nacionais em um sistema de informação geográfica. A análise considerou cinco indicadores:
- entrega de fertilizantes por cultura e município;
- número de cabeças de animais;
- área de cana-de-açúcar com fertirrigação;
- balanço hídrico quantitativo das microbacias;
- vulnerabilidade do solo à erosão causada pela água.
O foco foi principalmente o nitrogênio e o fósforo, nutrientes que podem chegar aos corpos d’água por escoamento superficial ou infiltração. A erosão também transporta sedimentos. Quando a chuva encontra solo descoberto ou mal protegido, o problema tende a aumentar.
Onde a atenção é maior
As áreas mais críticas aparecem sobretudo em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e na região do Matopiba, que reúne partes de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. O estudo também identifica municípios prioritários, de forma mais localizada, no Paraná e em São Paulo.
Essa distribuição não significa que toda propriedade nessas regiões esteja contaminando a água. O trabalho usou indicadores municipais e bases secundárias. O manejo de cada sítio, lote ou criação não foi avaliado. Por isso, o mapa serve para orientar monitoramento e política pública, não para substituir análise de água ou vistoria técnica.
O que o produtor pode conferir no sítio
Mesmo sem esperar uma fiscalização, algumas verificações ajudam a reduzir desperdício e carreamento de solo:
- Veja por onde a água corre. Depois de uma chuva, observe sulcos, pontos de concentração e locais onde a terra está sendo levada para a estrada, o córrego ou o açude.
- Mantenha o solo protegido. Cobertura vegetal e práticas de conservação reduzem o impacto direto da chuva e a perda de partículas.
- Planeje a adubação. Use a recomendação adequada para a cultura e evite tratar o fertilizante como algo que pode ser aplicado sem considerar a chuva e a capacidade do solo.
- Cuide das margens. A vegetação nativa nas zonas ripárias funciona como uma barreira importante para sedimentos e nutrientes. Respeite as regras ambientais aplicáveis à propriedade.
- Separe áreas de criação e cursos d’água. Dejetos, cama e água de lavagem não devem ser conduzidos diretamente para nascentes, córregos ou reservatórios.
O primeiro passo não é comprar um produto. É localizar a nascente, o córrego ou o açude que abastece a propriedade, identificar as áreas de enxurrada e corrigir o ponto de entrada de sedimentos. Quando houver suspeita de alteração na água usada para consumo, irrigação ou animais, a decisão segura é buscar análise em laboratório ou orientação de assistência técnica local.
Mapa não é laudo de contaminação
A própria pesquisa trata os resultados como prioridade para monitoramento. Ela não mede a água de cada município, não ranqueia propriedades e não avalia a sustentabilidade individual de cada manejo. Essa diferença evita dois erros: ignorar um risco regional ou concluir, sem análise, que uma nascente está contaminada.
O estudo completo da Embrapa está disponível no Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento nº 291. A notícia que resume o mapeamento pode ser consultada no portal da Embrapa Meio Ambiente.
Para entender outro alerta recente sobre água e insumos, veja também a análise do Agrocim sobre o estudo que avaliou o acúmulo de nanoatrazina em microalgas.