Um estudo de três anos da Embrapa Semiárido confirmou que o frio pode escurecer a polpa de mangas suscetíveis durante o armazenamento e o transporte refrigerado. O problema, chamado de corte negro, pode derrubar a qualidade de um lote mesmo quando a casca chega com boa aparência.
A descoberta interessa ao produtor que vende para packing house, mercado distante ou exportação. O ponto de colheita e a temperatura da cadeia pós-colheita passam a ser decisões de qualidade, não apenas de logística. A notícia da pesquisa foi publicada pela Embrapa em 15 de setembro de 2026.

O que a pesquisa mostrou
O corte negro, também chamado de black flesh, é um distúrbio fisiológico que aparece principalmente perto da semente. A casca pode não denunciar o defeito. Por isso, o consumidor ou o comprador só percebe o problema ao cortar a fruta.
Os experimentos usaram mangas Tommy Atkins, Kent, Palmer e Keitt de pomares comerciais com histórico do distúrbio. Frutos colhidos ainda muito verdes mostraram maior sensibilidade ao frio. Nas condições estudadas, temperaturas entre 8 °C e 10 °C favoreceram o escurecimento. Nos mesmos lotes, mangas mantidas a 12,5 °C não apresentaram sintomas.
O que conferir antes de resfriar o lote
- Ponto de colheita: manga muito verde pode suportar pior o frio. O estágio precisa ser combinado com o mercado de destino e o tempo previsto de transporte.
- Temperatura real: não basta saber a regulagem da câmara. O produtor e o packing house precisam conferir se o lote percorre armazenamento e transporte dentro da faixa definida para aquela operação.
- Tempo de percurso: quanto mais longa a permanência refrigerada, maior a necessidade de alinhar maturação, temperatura e tipo de contêiner.
- Histórico do pomar e da cultivar: a pesquisa trabalhou com lotes e variedades suscetíveis. O resultado não deve ser aplicado como regra única a toda manga produzida no país.
1-MCP e atmosfera controlada não são solução automática
A Embrapa também avaliou atmosfera controlada e o 1-metilciclopropeno, conhecido como 1-MCP. Em Tommy Atkins e Keitt, frutos sem tratamento chegaram a incidência próxima de 100% após 45 dias a 9 °C. Com 200 nanolitros por litro de 1-MCP, o índice ficou abaixo de 60% nas condições do experimento.
Esse resultado mostra potencial de manejo pós-colheita. Não significa que qualquer produtor deva aplicar o produto por conta própria. A adoção depende do mercado, da estrutura disponível, do tempo de embarque e da orientação técnica para o uso autorizado na operação.
Onde a notícia muda a decisão na pequena propriedade
Para quem vende manga fresca em trajeto curto, a prioridade é não colher verde demais e entregar um lote uniforme. Para quem manda fruta ao mercado distante, o custo de errar aparece depois: devolução, desconto no lote ou perda de confiança do comprador. Nesse caso, a conversa com o packing house deve incluir ponto de colheita, temperatura e tempo de transporte antes do embarque.
O produtor do Vale do São Francisco já convive com uma cadeia voltada a mercados da Europa, dos Estados Unidos e da Ásia. A pesquisa reforça uma regra simples: reduzir a temperatura sem considerar a maturação pode proteger a aparência e prejudicar a polpa. O ajuste precisa ser feito por lote, cultivar e destino.
A tecnologia de triagem ainda está em desenvolvimento
Os pesquisadores trabalham em uma ferramenta com espectrômetros portáteis e leitura no visível e no infravermelho próximo. O algoritmo conseguiu separar frutos saudáveis e suscetíveis durante a colheita com precisão entre 80% e 90%, mas a solução ainda está em desenvolvimento. Não é uma ferramenta disponível para substituir a avaliação do lote na propriedade.
Dúvidas rápidas
A casca bonita garante que a manga está boa?
Não. O corte negro pode afetar a polpa interna sem mudar a aparência externa. A conferência precisa considerar o histórico do lote e a cadeia de frio.
A pesquisa vale para qualquer manga?
Não como regra geral. Os experimentos envolveram Tommy Atkins, Kent, Palmer e Keitt, em condições específicas. A decisão comercial deve considerar cultivar, maturação, tempo de transporte e estrutura de pós-colheita.
Fonte: Embrapa Semiárido. Para manejo do pomar, veja também o guia do Agrocim sobre irrigação por gotejo em pomar de manga no semiárido.